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dor

Minha formação ocorreu em um colégio particular no Rio de Janeiro, caracterizado pelo tradicionalismo, portanto, os professores tinham um modo de ver extremamente tradicional, podendo-se dizer até mesmo conservador e, hoje, consigo visualizar, antiquado.

Por conta desse processo avaliativo tradicional tive muitas dificuldades durante os estudos, muitas notas baixas e muita vontade de deixar de estudar em dados momentos. Não havia participação nas avaliações que invariavelmente eram verticais dos professores magnânimos em seus pedestais para nós insignificantes alunos.

A visão que tinha de escola, estudar e de avaliação eram dirimidas exclusivamente por esse modo tacanho, mesquinho e pequeno em que os professores não verificavam as características individuais dos alunos em detrimento à sua forma “perfeita” de ensinar com o lema “Antes de você, muitos outros já aprenderam desta maneira”. Só que sempre tive dificuldade de ser um dos “muitos outros”.

Uma das consequências disto foi o fato de eu odiar matemática apesar de ter facilidade com números (me formei Técnico de Contabilidade e a seguir Analista de sistemas mas, ainda odeio matemática). Isto é uma daquelas questões que os professores não foram capazes de desenvolver no âmbito escolar, que tornava o processo de aprendizagem tortuoso e a avaliação um martírio.

Tive professores maravilhosos também, em especial uma professora chamada Ivonete Souza que utilizava além da avaliação tradicional que era exigência da escola, processos da avaliação alternativa, por exemplo, avaliação contínua, de participação nas aulas através da aplicação de exames orais e efetuando perguntas que eram deveras objetivas e ainda assim instigavam aos alunos pesquisarem e tornarem-se independentes quanto ao estudo e busca de conhecimento.

Esta professora teve muita importância na minha vida pois durante o ensino médio fui indicado por ela para estágio, apesar de não ter notas muito boas nas outras disciplinas. A avaliação cuidadosa desta educadora iniciou minha vida profissional e teve grande impacto na maneira como avalio meus alunos pois julgo importante que esta oportunidade seja dada também a outros alunos da mesma maneira que ocorreu comigo.

Já no ensino superior tive um professor que era totalmente de abordagem tradicionalista e, destoava da maneira que os outros professores construíam os conteúdos na faculdade. Este professor reprovou-me por 0,2 pontos em uma disciplina que era das mais difíceis do curso e, pré-requisito de outras muitas e custou-me um ano a mais na faculdade.

Penso que esta visão deste docente não era capaz de ver o todo do meu aprendizado, pois se 0,2 pontos são o suficiente para avaliar um aluno, a avaliação global e formativa do aluno de nada valem pois, era esta a oportunidade que este profissional tinha de verificar que eu era um aluno participativo das aulas, fazia os trabalhos propostos, tinha assiduidade adequada e, o principal, havia compreendido a disciplina (tanto que no outro período em que fiz a disciplina passei com nota 9,8 – novamente ele não me deu 0,2 para passar com nota dez).

Em outra oportunidade, um outro profissional de educação no curso superior foi capaz de reprovar quase todos os alunos da turma por nota. Ocorreu de em uma turma de quinze alunos nenhum deles ter sido capaz de passar na disciplina adequadamente, tendo todos ido para a recuperação e, na recuperação, apenas dois passaram na disciplina. Fui um dos que passei pois o professor disse-me “Você não passou nesta disciplina mas, eu estou te passando”. No final deste período, dois colegas desistiram da faculdade.

Nos três casos, o conflito entre o modo de avaliação tradicional e o alternativo são deveras acentuados e, a avaliação tradicional não é capaz de visualizar a amplitude do aluno, isto é, não avalia o aluno como um ser humano, sendo este tão somente um agente que participa de um conjunto de aulas e deve ter uma nota, independentemente de quem ele seja, não levando em conta que este possui peculiaridades que devem ser abordadas durante o processo de estudos.

Um professor pode – e deve – ser o vetor para a mudança social do aluno e não para que este deixe os estudos e desista de seus sonhos. O fato de que um determinado docente foi vítima de modos de ensino que não levam em consideração as idiossincrasias dos alunos e, por consequência suas necessidades e anseios, não justifica que este professor deve perpetuar este modo de tortura. O fato de alguém ter sido roubado não deve torná-la ladrão.