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RELAÇÃO ENTRE OS MODERNOS SAFÁRIS EM FAVELAS E OS ZOOLÓGICOS HUMANOS DO SÉCULO XIX

 

A questão que se coloca aqui quanto aos zoológicos humanos e o turismo de safáris nas favelas cariocas tem haver com questões etnocentristas mas talvez outro viés pouco explorado é que também trata de uma questão da psiquê humana que é ser curioso quanto ao outro.

Nesse sentido há muitos exemplos que se pode tratar onde se faz um espetáculo para turistas, onde se vê o que é o estereótipo tratado como o rotineiro. Ora, os estrangeiros que vão ao Coliseu romano na Itália querem ver Gladiadores, há sempre alguém caracterizado como tal para grupos de turistas.

Gladiadores

 

De maneira anômala há essa questão em todo mundo e desde sempre. Aqui fulcro é a exploração de uma forma de atração turística que envolve áreas empobrecidas.

Internacionalmente tal prática é conhecida como “Slum tourism” ou “Ghetto tourism” e é praticada desde o século XIX, mesma época que se colocam os Zoológicos humanos a que se pretende comparar aqui.

Tal prática está presente em países africanos, na Índia (inclusive é parte do tema do filme “Quem quer ser milionário) e inclui partes de locais que sofreram tragédias, desde as clássicas áreas de emprisionamento de judeus na II Guerra mundial, até locais de desastres naturais como Chernobyl (Que passou em partes do último filme de James Bond), Bronx (que possui um tour pelos guetos chamado “O Bronx real” – vídeo em inglês de reportagem no Youtube –) e finalmente nas áreas da Indonésia (em que houve o Tsunami no ano de 2010).

Pode-se perceber que é uma questão inerente à curiosidade e, mais inerente à disciplina aqui versada, uma maneira de comparação social, ainda podendo-se verificar algumas questões relacionadas até mesmo à educação.

Aí se pode até classificar em outros itens como turismo de desastre e visitação a lugares abandonados, geralmente marcados por tragédias humanas.

Uma questão não verificada é: Que motivações os turistas possuem para participarem de tais safaris? Seriam as mesmas que as pessoas tinham no século XIX?

O site http://slumtourism.net/ é um local onde pessoas que estão envolvidas nisto se relacionam e trocam informações e aí que está a resposta: Isto é um negócio. Como tal há questões outras a serem verificadas.

Quanto ao etnocentrismo, claro que existe! Racismo, discriminação e outras mazelas relacionadas à degradação humana sim estão presentes, contudo, o poder público tenta apenas mascarar uma realidade que deveria ser remediada e esta é a crítica: Não trata-se de esconder mas de remediar ou minimamente humanizar.

Qual foi o fim dos zoológicos humanos? A Academia, através dos estudos antropológicos e sociológicos colocarem em xeque tais exposições de outros seres humanos.

Qual o fim dos safáris de favelas? Criação de políticas públicas de urbanização, cultura, dignificação, saúde e educação àquela população, de maneira que a “savana” não seja mais nosso quintal.

Uma provocação: Quem promovia são as mesmas pessoas que ainda promovem estes shows? Quem são estes indivíduos?

ALGUNS COMENTÁRIOS

Meus comentários abaixo.

Uma visão dos locais históricos são sempre contextualizados de acordo com o uso social que se dá a estes locais. O Coliseu era o local utilizado para tal o martírio dos inimigos do Estado romano. Nesse sentido, também há de se perceber uma questão relacionada a como os romanos se viam e como viam o restante das pessoas. É a visão mais etnocentrista possível. De seguida, compreendido o motivo da peregrinação. Dei uma olhada no texto: http://www.ppe.uem.br/jeam/anais/2007/trabalhos/033.pdf

Vi o texto (http://www.scielo.cl/scielo.php?pid=S0718-07052009000100012&script=sci_arttext&tlng=pt). Compreendi a visão relacionada a esse lema de não se esquecer para não esquecer. Talvez aí resida inclusive a motivação pessoal que tenho para cursar história.
Este texto lembrou da questão que mais impressionou-me quando visitei pela primeira vez o Museu do inconsciente e vi as obras do artista Bispo do Rosário. Fiquei pensando na angústia que o indivíduo deveria sentir para externar daquela maneira tão elaborada seus sentimentos. Possivelmente é a mesma visão que, ainda no contexto de Villa Grimaldi ou outros locais de calamidade e tragédia são visitados e contemplados. Vi um texto interessante sobre este assunto: http://www.seer.unirio.br/index.php/opercevejoonline/article/view/512/436.

Por que há demanda de visitas a estes lugares?

Há muitas questões que tratam deste item sobre a demanda. De maneira prática, pode-se pensar em três itens como principais: desconhecimento, ignorância e cinismo. (contraponto o artigo abaixo).

Desconhecimento da cultura alheia e de suas peculiaridades, mazelas e idiossincrasias.
Ignorância quanto ao diferente, que aliás, é o viés da disciplina aqui estudada: Compreender o outro, ou pelo menos aceitá-lo como este é, da maneira que ele é.

Cinismo quanto ao que acontece vs. o que se pode fazer acerca do assunto e, aí há uma questão de se sentir bem acerca de si mesmo quando em comparação com outros que considera inferior.

O que o visitante procura nesses lugares?

Pensando por um prisma diferente do que anteriormente havia sido abordado por mim, é a visão do diferente como menos evoluído e a reafirmação das caracteristicas que tornam os “animais do safári” mais inferiores, como exemplo, menos recursos.
Como o visitante olha para as pessoas que ali vivem em seu “habitat”?

O diferente causa aflição àqueles que não o compreendem, causa inquietação aos que querem ajudar e indiferença aos que se julgam superiores. Com esse olhar de superioridade, pode-se retornar ao Coliseu e falar de como os “Cidadãos romanos” viam-se a si mesmos e como viam os “Bárbaros”, ou seja, qualquer um que não era cidadão, ou seja, diferente. Aqui expande-se o conceito ao se pensar também como vemos a cultura da favela, que diferente daquela do observador deve ser dispensada, ultrajada, inferiorizada, quando apenas é diferente.

Vide: http://www.uniabeu.edu.br/publica/index.php/RE/article/view/2041/pdf_424

Como o visitante compara-se aos que ali vivem?

Aí é que está a questão: Não compara-se muitas vezes! Ali é outro mundo, outra visão, outra realidade e que jamais fará parte, sendo os “animais” ali apresentados de uma espécie “prima” da dele mas não da mesma.

Vide: http://www.scielo.br/pdf/ref/v10n1/11632.pdf e http://pepsic.bvsalud.org/pdf/pcp/v23n2/v23n2a02.pdf

Será a mesma visão dos zoos humanos?

A visão científica da época dos Zoológicos Humanos (Séc XIX) é bastante interessante pois floresciam conhecimentos e teorias como a Eugenia (Francis Galton, 1883), o etnocentrismo (Edward Tylor, 1871) e a evolução das espécies (Charles Darwin, 1859). A questão interessante aqui é que o método científico, que origina-se desde as bases do construtivismo e positivismo lá pelo século XVI e vigorou até o século XIX e início do século XX, portanto, em voga na época em que estes Zoológicos estavam em funcionamento pleno, era o “Determinismo Mecanicista” (Reducionismo, Modelo cartesiano), proposto por Descartes, que por si é empírico e muito parcial, cuja premissa é que “O mundo deve ser compreendido, dominado e modificado em favor do homem”. O que contrapõe ao modelo atual que por si é transdisciplinar e prevê a questão mais fantástica é que a ciência, como todas as ciências do saber humano, não é infalível (Karl Popper que diz isso).

Mas qual a importância desse método científico na questão dos Zoos humanos? À sua época, o conhecimento acadêmico predominate permitia apenas uma conclusão lógica de acordo com a proposição que não permitia as refutações ou mudanças de “paradigmas tradicionais”. É aquela questão de que sempre se assumia que se o pressuposto estava correto, a conclusão não poderia estar errada. Dessa maneira, analisar tais itens por uma visão da época não há nada demais . Ora, numa época em que se acreditava no conceito de Tábula rasa (cuja expressão de Russeau “O homem é produto do meio”, os pensamentos do empirismo de Locke e do positivismo de Comte, representam parte do que mais tarde comporia o Behaviorismo clássico), em que crianças eram “pequenos adultos” e a informação não viajava tão rápido quanto atualmente, é bastante possível que o diferente fosse objeto de curiosidade, principalmente por ignorância.

Inegável que era algo detestável, contudo, contextualizando à época, compreensível.

Verifiquei os textos: http://www.scielo.br/pdf/ref/v18n3/v18n3a10, http://www.feata.edu.br/downloads/revistas/economiaepesquisa/v3_artigo07_evolucao.pdf , http://www.filologia.org.br/xix_cnlf/cnlf/08/037.pdf, http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=alunos&id=368

Não é só sobre curiosidade e sobre conhecer o diferente e como nos vemos em relação ao outro.

 

PARA CONTEXTUALIZAR:

Um excelente vídeo do Porta dos Fundos sobre o assunto safári em favelas

Um texto de referência na Wikipédia sobre o tema Zoológicos humanos (Clique na imagem para ir ao texto):

Zoo Humano

Zoo Humano

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Agradecimento à professora Ursula Pinto Lopes de Farias que instruiu-me nesta disciplina.